2008-07-23

Sal do Atlântico

Eram os pés. Eles voavam perdidamente por cima de meu corpo, pareciam não ter vontade de querer encontrar qualquer destino ou direção, simplesmente bailavam entrelaçados pelo céu sujo, sem se importar com o que a minha vista poderia achar daquilo tudo.

Eu havia passado por alguns ocorridos estranhos, os quais não valem a pena relatar aqui, mas mais do que nunca me via à cabeça de forma muito nítida o meu velho tio gordo dizendo o que era de praxe quando eu era mais novo: "Ouça o que eu digo garoto, eu atravessei sozinho o deserto, trajando uma velha jaqueta que eu havia roubado no México e um boné dos Yankees, e mesmo assim eu sobrevivi e cheguei até aqui para poder lhe contar a minha gloriosa jornada. E nenhum homem viverá para cuspir na minha cara, ah não, eu hei de morrer antes, nem que seja por teimosia. Escutou, garoto?"

Ele morreu atropelado alguns anos depois e eu nunca soube dizer se de fato entendia o que ele queria ao me contar tudo aquilo, mas agora a minha vontade era a de pôr algumas roupas na mochila, juntas ao pacote de babatas chips, um maço esmagado de Camel Lights e fugir. Não que eu estivesse triste ou insatisfeito por estar em casa, não era nada disso. Eu apenas sentia que deveria finalmente seguir sem rumo por onde quer que fosse, não me importando onde a minha vontade pudesse me levar. Era um risco que eu deveria correr.

Eu não tinha a pretensão de varrer o deserto ou me afogar no sal do Atlântico, sempre existiram pessoas que estiveram à minha frente para burlar os meus anseios intempestivos, e eu sempre fui fraco, não era difícil para elas concluírem tal tarefa. "Nós iremos dar fim aos seus sonhos", eles diziam. Que babaquice, eu era o homem sem sonhos, nunca quis ser astronauta, pintor de paredes ou rockstar, não traçava planos nem me apaixonava pela vizinha, eu não precisava de nada daquilo.

Mas desta vez era diferente, não haveria ninguém para se pôr entre mim e a estrada, eu correria o máximo que pudesse, seria tão veloz quanto os carros ou as motocicletas, tão ágil quanto os coiotes se preciso fosse, e não pensaria antes de fazer algo que viesse a me auxiliar em meu caminho.

Era apenas o começo do fim, e a essa altura ali estavam os pés a voar por cima de meu corpo, pés desnudos e ásperos, que pareciam ter quase a mesma vontade que eu tinha de não estar mais ali. Arranquei um pedaço de papel do meu diário em branco, e comecei a escrever algumas linhas tortas: eu já tinha uma idéia para o meu epitáfio.

2 comentários:

Eduardo Winck Veiga disse...

Clap, clap, clap.

Você se daria bem escrevendo um livro.
Abraço.

ana paula disse...

ADOREI ESSE POST!!!! tem momentos que eu sinto necessidade de sair por ai andando sem rumo, simplesmente sentindo o vento no rosto e me deixando levar!! tudo de bom!!! PARABÉNS!!!